Ghislain du Chéné

Ghislain du Chéné

Ghislain du Chéné, engenheiro, pai de cinco filhos, entre eles Julie, com Síndrome de Down, e coordenador internacional do Fé e Luz, nos fala sobre a alegria que brota nas comunidades com pessoas com deficiência. Fui convidado a dar meu testemunho na II Vigília pela Vida, organizada pelos bispos das oito dioceses da região L’Ile de France. -o dia 27 de maio, às 20 horas, estava eu no meio da Catedral -otre Dame de Paris, muito impressionado de falar para uma catedral cheia e uma dezena de bispos! Eis abaixo o teor do meu testemunho:

“Boa noite a todos, eu sou Ghislain du Chéné. Vim esta noite acompanhado de Marie-Christine, de quem sou amigo há 12 anos e também com minha filha Julie. Julie tem 22 anos e foi ela que me trouxe para este mundo doloroso, mas às vezes maravilhosamente bonito das pessoas que têm uma deficiência intelectual. Eu tinha medo e angústia no coração. Mas quando vemos Julie… ela é capaz de nos libertar de muitos destes medos e angústias. Foi Julie que me trouxe para Fé e Luz, e eu gostei… a tal ponto que hoje sou o coordenador internacional! Mas o que é Fé e Luz? Este movimento nasceu de uma peregrinação a Lourdes, organizada na Páscoa de 1971, por Jean Vanier e Marie-Hélène Mathieu, para pessoas com uma deficiência intelectual, suas famílias e amigos, porque na época as pessoas com deficiência eram excluídas das peregrinações diocesanas.

Felizmente, hoje não é mais assim! E Fé e Luz cresceu e se espalhou pelo mundo: há atualmente mais de 1600 comunidades em cerca de 80 países. Em Fé e Luz, nós vivemos simplesmente a amizade e a comunhão com as pessoas com deficiência intelectual em pequenas comunidades de encontro, com um assistente espiritual. E nos encontramos uma vez por mês para viver esta amizade, através da partilha, da festa, da celebração e da oração. Não se trata de grandes feitos, mas é essencial viver assim as rela- ções de amizade. Nós queremos que estas comunidades se pareçam com o que o próprio Jesus descreveu quando ele disse “venham a mim vós todos que sofreis e estais oprimidos de trabalhos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”(Mt 11,28)

Hoje, o homem moderno crê que Deus e a natureza fizeram as coisas mal feitas; que a vida com uma deficiência, intelectual ou outra, não vale a pena ser vivida, e a solução que é proposta é a de erradicar a deficiência pela raiz. Mas isto é fazer pouco caso da Palavra de Deus. Em Fé e Luz, nós falamos sempre as palavras que Jesus exclamou sob a ação do Espírito Santo: “Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e eruditos e as revelaste aos pequeninos! Sim, Pai, porque isto foi do seu agrado.”(Lc 10,21).

Também relembramos sempre as palavras de São Paulo, que disse: “mas Deus escolheu o que é fraco diante do mundo para confundir os fortes, e Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo, para confundir os sábios. Deus também escolheu o que é baixo e desprezível, conforme o mundo, e escolheu o que não vale nada para destruir aquilo que é” (1Co 1, 27). Nós somos orgulhosos de poder assim contribuir para revelar o valor de nossos amigos com deficiência. Esta amizade que vivemos com eles nas nossas comunidades é uma coisa muito séria e muito exigente.

Quando nos tornamos amigos de uma pessoa com deficiência intelectual, não é só para uma vez ao mês, mas amigo todo o tempo! Pensamos em lhes levar apoio, ajuda e amizade, e nada receber em troca. Mas depois de um tempo, nos apercebemos que é o inverso, pois são elas que nos dão bem mais do que nós podemos lhes dar. Alguns exemplos, alguns fioretti vão lhes mostrar, bem mais que um grande discurso, tudo o que vive Ghislain du Chéné, engenheiro, pai de cinco filhos, entre eles Julie, com Síndrome de Down, e coordenador internacional do Fé e Luz, nos fala sobre a alegria que brota nas comunidades com pessoas com deficiência. FÉ E LUZ mos em Fé e Luz:

• Na espiritualidade da pequenez, eu penso naquela mamãe que estava em Lourdes, numa peregrinação de Fé e Luz e me dizia: “há 10 anos, eu vim para pedir a Maria que minha filha sorrisse”. E sua filha, que estava numa cadeira de rodas, tinha mesmo um lindo sorriso. E a mãe acrescentou: “agora, ela sorri, e eu vim para pedir a mesma coisa para as outras mães”

• Numa comunidade Fé e Luz, para a Páscoa, nós tínhamos pedido que cada um levasse um caixinha com coisas dentro que manifestassem a vida. Quando abrimos as caixas, alguém tinha levado uma flor, outro um inseto… E então um rapazinho com Síndrome de Down abre sua caixa… e não havia nada dentro. Nós lhe dissemos: “você não entendeu bem o que havíamos pedido; era necessá- rio trazer alguma coisa que manifestasse a vida”. Ele respondeu: “Bem, minha caixa… ela é como o túmulo de Jesus: está vazia porque Jesus está vivo, Ele ressuscitou!” Nós temos grandes teólogos em nossas comunidades!

• Na África, onde já fui muitas vezes pelo Fé e Luz, constatei que os pais podem agora sair de casa com seu filho deficiente sem ter medo de que lhe apontem o dedo. Porque, na África, ter uma criança com deficiência é muitas vezes, para eles, uma manifestação de uma maldição.

• Eu poderia lhes falar de Pacifique, que é uma criança deficiente, agora no céu, que salvou a vida de seu pai em Ruanda, em 1994. Seu pai era hutu e um dia, a milícia foi até a casa deles à procura de sua mamãe tutsi, que estava escondida no teto da cozinha. E misteriosamente, a milícia foi embora sem fazer mal a ninguém. Bem, eu os convido a vir ver o que se passa em nossas comunidades Fé e Luz. Há cerca de sessenta em toda Ile de France. Poderíamos até crer que é muito, mas eu acho que não é o bastante, pois ainda há muitas famílias isoladas que esperam por um gesto de amizade para encontrar apoio, um lugar de repouso, onde não se tenha medo dos olhares alheios, onde as relações fazem nascer a paz e a alegria para poder brincar, cantar e fazer a festa todos juntos.

Em 2011, festejaremos os 40 anos de Fé e Luz, e seremos os “Mensageiros da alegria”. Nós queremos mostrar ao mundo a alegria que, paradoxalmente, se vive nas comunidades com pessoas deficientes! Poderíamos crer que o sofrimento é a principal coisa que se vive nas comunidades. Mas não é não. Nós encontramos ali muita alegria e queremos testemunhar isto. É sob estas circunstâncias, com peregrinos em todo o mundo, que queremos mostrar nossa alegria. Através destes eventos, podemos convidar outras pessoas para virem ver o que acontece em nossas comunidades.

Este convite tem pressa, pois já será no ano que vem. Posso lhes garantir que será muito bom e vocês não ficarão desapontados! Enquanto tantas crianças com deficiência intelectual são mortas antes ou até mesmo depois de nascerem, e outras tantas abandonadas, Fé e Luz crê que a vida de toda pessoa é única e sagrada. Mesmo o mais frágil é chamado a ser fonte de alegria e de paz, na Igreja e no mundo. As comunidades Fé e Luz querem testemunhar a ternura de Deus para com elas e suas famílias. E para terminar, eu posso lhes dizer que nós não esperamos muitas recompensas vindo a Fé e Luz. Mas para mim, a mais bela recompensa é ver o sorriso e a alegria das pessoas com deficiência quando elas fazem coisas legais e quando estão integradas numa comunidade. Minha mais bela recompensa é ver pais e mães cheios de emoção quando vêem seus filhos tão bem integrados na comunidade.

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